A Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investiga as responsabilidades pelos fios soltos nos postes de Goiânia ouviu, na tarde desta terça-feira (28), o relato da diarista Daiane do Nascimento, mãe de Nathaly do Nascimento, de 17 anos, que morreu após receber uma descarga elétrica ao pisar em um fio energizado enquanto atravessava uma enxurrada, em setembro do ano passado. Em depoimento emocionado, Daiane contestou a versão apresentada anteriormente por representantes da concessionária de energia de que a família teria recebido assistência após o ocorrido.
Também foi ouvido pela CEI o coordenador municipal de Proteção e Defesa Civil, Robledo Mendonça, que detalhou os protocolos adotados pelo órgão em ocorrências envolvendo fiação exposta. Os vereadores Coronel Urzêda (PL), presidente da CEI, e Geverson Abel (Republicanos), relator, comentaram as providências que a comissão pretende adotar para evitar novos acidentes. À reunião, estiveram presentes, ainda, o vereador Tião Peixoto (PSDB) e a vereadora Daniela da Gilka (PRTB), vice-presidente da CEI, que participou de forma remota.
Sonhos interrompidos
Em seu depoimento, ao ser questionada sobre a rotina da filha, Daiane relembrou os planos interrompidos precocemente. “A Nathaly tinha só 17 anos, era a caçula de quatro filhos; para mim, era ainda uma criança. Levava a vidinha dela, tinha arrumado um emprego, havia se formado no 3º ano e pensava na faculdade. Tinha os sonhos dela, como qualquer pessoa. Infelizmente, minha filha foi vítima da negligência. Para mim, não foi uma fatalidade, foi negligência”, destacou.
Na opinião de Daiane, o acidente que matou Nathaly poderia ter sido evitado. “Tiveram pelo menos uma hora para fazer a manutenção até que a minha filha pisasse no fio solto, às 17h18, como mostraram as imagens das câmeras”, argumentou ela, que também criticou a falta de mudanças após a tragédia: “Já fazem quase oito meses que a Nathaly morreu e o que mudou de lá para cá? Nada!”
A mãe da adolescente negou, por várias vezes, durante a oitiva, ter recebido qualquer tipo de apoio da Equatorial. “Nem na época e nem depois. Nada!”, afirmou. A declaração contraria o depoimento do diretor-presidente da empresa em Goiás, que, segundo Coronel Urzêda, informou à comissão, anteriormente, que a família teria recebido assistência completa por parte da concessionária. “Falaram, aqui, em suporte para velório, sepultamento e acompanhamento jurídico e psicológico. Isso é grave. A família não ter recebido qualquer tipo de apoio é um absurdo”, reagiu o parlamentar, lembrando que a responsabilidade direta, no caso, é da Equatorial. “Nathaly morreu energizada por um fio da empresa e não das operadoras de telefonia”, pontuou.
Questão de justiça
Para Daiane do Nascimento, a responsabilização da concessionária de energia é essencial. “É a justiça que buscamos. Quem tiver que pagar, que pague. Nossa dor não passa. A empresa precisa ser responsabilizada para que não ocorra com outras mães o que ocorreu comigo”, ressaltou. Ela também elogiou a criação da CEI, que leva o nome da filha. “Qualquer apoio em nossa busca por justiça é muito importante. Não podemos deixar que a morte da Nathaly tenha sido em vão.”
Durante a reunião desta terça-feira, logo após o depoimento de Daiane, os membros da comissão instalada na Câmara ouviram ainda o coordenador municipal de Proteção e Defesa Civil, Robledo Mendonça. Ele explicou que a atuação da Defesa Civil, em casos de fios soltos, ocorre a partir de dois tipos de comunicação: a externa, feita pela população, e a interna, realizada por equipes que já estão nas ruas, especialmente em períodos de chuva. Conforme informou, após o acionamento, a concessionária é comunicada oficialmente para realizar a intervenção necessária. Nos casos identificados por equipes operacionais, a orientação é isolar a área e permanecer no local até a resolução do problema.
Encaminhamentos
Na avaliação do relator da CEI, Geverson Abel, o depoimento de Daiane do Nascimento traz elementos relevantes para o relatório final. “Pelo que constatamos hoje, o diretor-presidente da concessionária faltou com a verdade ao afirmar que deu todo o suporte à família. Isso constará do nosso relatório, e tudo o que for possível apontar como penalidade será feito, para evitar que casos como esse se repitam”, sustentou.
A CEI dos Fios Soltos deverá, agora, encaminhar requerimento à Prefeitura solicitando que vereadores acompanhem as ações do Programa Cidade Segura, executado pela Agência de Regulação de Goiânia (ARG), em parceria com o Ministério Público de Goiás (MP-GO). A iniciativa tem como objetivo retirar fiações e cabeamentos irregulares instalados nos postes da capital, considerados fatores de risco para acidentes. “Como representantes diretos da população, a partir do que já temos de informações nesta CEI, não restam dúvidas acerca do nosso papel”, concluiu o presidente da comissão, Coronel Urzêda.
Relembre o caso
Nathaly Rodrigues do Nascimento morreu, aos 17 anos de idade, no dia 23 de setembro do ano passado, data em que chovia fortemente na capital. A adolescente sofreu uma descarga elétrica ao pisar em uma poça d’água com cabos de alta tensão rompidos na Rua 20, na região central de Goiânia, pouco depois das 17 horas, quando deixava o trabalho e retornava para Bonfinópolis, onde morava e tinha uma prova marcada na escola.
De segunda a sexta-feira, de acordo com informações de familiares, Nathaly mantinha uma rotina intensa: acordava às 4h30 da manhã para pegar um ônibus até a capital, trabalhava em uma papelaria e, no fim do expediente, voltava para sua cidade, na região metropolitana, para estudar à noite.
À época da ocorrência, há sete meses, conforme relatos de testemunhas, Nathaly saiu correndo do trabalho, sob a forte chuva, para não se atrasar para a prova. Ao tentar atravessar a Rua 20, pisou, então, em uma poça d’água que escondia os fios de energia rompidos, que haviam caído pouco antes. Imagens de câmeras de segurança registraram a jovem atravessando a rua acompanhada de um amigo. Segundos depois, os dois foram atingidos pela descarga elétrica. O colega conseguiu escapar da tragédia com vida; Nathaly, contudo, não teve a mesma sorte.
A Polícia Militar chegou ao local, mas os cabos ainda estavam energizados, o que impediu o resgate imediato da estudante. Somente após a chegada das equipes da Equatorial, a energia foi cortada, permitindo que a Polícia Científica realizasse a perícia, ainda sob chuva intensa.
Em nota divulgada, na ocasião, por veículos de comunicação do Estado, a concessionária de energia Equatorial Goiás informou que iria apurar as circunstâncias da queda do cabo, além de prestar apoio à família. “A Equatorial Goiás lamenta profundamente o acidente registrado durante o temporal desta terça-feira (23), em Goiânia. A companhia se solidariza com os familiares e amigos da vítima e informa que prestará todo o suporte necessário”, destacou um trecho da nota.
