Questionamentos sobre a retirada de árvores e pedidos de maior transparência por parte do Executivo Municipal marcaram a audiência pública realizada, na tarde desta quarta-feira (10), na Câmara de Goiânia, para discutir o projeto de revitalização do Lago das Rosas. O encontro reuniu moradores, especialistas e representantes do poder público para debater os impactos das intervenções previstas para um dos parques mais tradicionais da capital.
Autora do requerimento que solicitou a realização da audiência, a vereadora Kátia (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Casa, destacou que existem divergências com relação aos laudos da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), que apontam a necessidade de retirada de 48 árvores consideradas comprometidas. A parlamentar cobrou mais informações – como o planejamento e um cronograma das obras – sobre o projeto de revitalização da área, que não recebe melhorias significativas há pelo menos 15 anos.
Participaram do debate proposto por Kátia representantes da Amma; do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA), da Universidade Federal de Goiás (UFG); e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO), além de moradores e frequentadores do parque.
Questionamentos
Em sua fala, Maria Helena Tavares Vilela, presidente da Associação de Moradores do Lago das Rosas, lembrou que, desde 2018, quando assumiu a função, a entidade vem cobrando do poder público municipal uma reforma e maior atenção ao parque “icônico” da cidade – desde aspectos da infraestrutura até manutenção e segurança. Embora reconheçam a iniciativa da atual gestão e tenham demonstrado apoio ao projeto de revitalização do Lago das Rosas, ela e outros participantes do debate questionaram os critérios adotados para a supressão de árvores e defenderam uma nova avaliação técnica dos exemplares listados no laudo da Amma.
Carlos Eduardo, do Movimento Goiânia Verde e SOS Lago das Rosas, fez uma ampla explanação sobre os problemas enfrentados com o desmatamento e edificações sem critérios e respeito ao meio ambiente, áreas verdes, nascentes e cursos d’água em Goiânia. Moradora da região, Fabíola de Freitas pediu mais esclarecimentos sobre a proposta apresentada pela Prefeitura. “Eu gostaria de entender quais critérios serão adotados para a retirada dessas árvores e também ter acesso a outras informações importantes para que a Prefeitura ganhe a nossa confiança. Quem está financiando este projeto? Por qual motivo? Essas árvores que teriam de ser retiradas, por que precisam ser retiradas? Outras espécies serão replantadas? Quais espécies? Quando?”, questionou.
A presidente da Amma, Zilma Peixoto, explicou que um levantamento realizado em 2024 identificou árvores com comprometimento estrutural e potencial risco à segurança dos frequentadores do parque. Segundo ela, uma das espécies que se tornou alvo do impasse, uma paineira – popularmente conhecida como “barriguda” –, teve as raízes destruídas pela ação de um besouro.
“Esse exemplar está sustentada praticamente por uma casca e por uma árvore invasora. Não justifica querer proteger uma árvore que pode cair a qualquer momento, colocando vidas humanas em risco. No entorno dela há pista de caminhada, academia e uma via com intenso fluxo de veículos. Se uma árvore daquele porte cair naquele local, certamente teremos graves prejuízos”, sustentou.
Presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara, Kátia ressaltou que não existe oposição à retirada de árvores que realmente apresentem risco, mas defendeu uma reavaliação dos exemplares apontados pela Amma como comprometidos. “Tem exemplares ali que, nitidamente, parecem contrariar a necessidade de extirpação. Vários biólogos já passaram pelo local e o próprio Ministério Público de Goiás determinou a suspensão dos serviços. Isso porque há questionamentos acerca do levantamento apresentado pela Amma”, argumentou a vereadora.
Opiniões distintas
Durante a audiência pública realizada na Câmara, nesta quarta-feira, o gerente de Arborização Urbana da Amma, Jeferson Pires Mendonça pediu respeito aos servidores responsáveis pelas avaliações técnicas. “Peço civilidade no tratamento aos servidores. Nós não somos assassinos de árvores”, queixou-se, ao referir-se à conduta de pessoas da comunidade local diante de trabalhadores do Município na execução dos serviços.
Ao longo do debate, as manifestações dos moradores revelaram opiniões divergentes sobre a intervenção no Lago das Rosas. Frequentador do parque, o cardiologista Dener demonstrou preocupação com a redução das áreas verdes em Goiânia. “Quem procura um parque não quer sentar em uma praça de alimentação. Quer pisar na grama e sentar sob a sombra de uma árvore”, considerou.
Moradora da região, Simone Muniz destacou a importância social do Lago das Rosas: “É o único parque democrático da capital. Ele é acessível por transporte coletivo e recebe famílias de todos os cantos da cidade.” Já a moradora Nádia defendeu alternativas para preservação das árvores. “Cuidar é melhor do que extirpar. Sou favorável à ancoragem das árvores sempre que possível”, sustentou.
Por outro lado, Lourdes, também residente na área do Lago das Rosas, pediu que os vizinhos compreendessem o seu entendimento acerca da questão e não a discriminassem por “pensar diferente” da maioria. Para a moradora, algumas árvores apresentam condições que justificariam a remoção. “Concordo com a Amma. Realmente há árvores doentes, terminais e apodrecidas, que podem cair a qualquer momento. Essa é a minha opinião”, reiterou.
Ao final da audiência pública, a vereadora Kátia informou que a Comissão de Meio Ambiente continuará acompanhando o caso e aguardará o parecer conclusivo do Ministério Público de Goiás antes de definir novos encaminhamentos. A parlamentar também solicitou que o plano de manejo arbóreo e o cronograma de execução das obras sejam disponibilizados à Câmara e à comunidade.
Projeto prevê recuperação de estruturas e novas intervenções
Segundo a presidente da Amma, Zilma Peixoto, as obras de revitalização do Lago das Rosas já foram iniciadas e serão executadas em seis etapas, com previsão de conclusão até o fim deste ano.
O projeto prevê melhorias na iluminação pública, recuperação dos banheiros e da sede administrativa do parque, além da requalificação do Castelinho, que deverá passar a ser utilizado pela Secretaria Municipal de Cultura.
Também estão previstas adequações nos espaços ocupados por permissionários, que deverão assumir contrapartidas relacionadas à manutenção e conservação das áreas utilizadas.
Entre as novas estruturas anunciadas estão a implantação de um espaço destinado aos animais de estimação (pet place) e melhorias voltadas à acessibilidade e ao uso público do parque. Sobre os recursos empregados na obra, Zilma pontuou que as contratações seguem as normas da administração pública e são fiscalizadas pelos órgãos de controle.
A titular da Amma também informou que a retirada das árvores ocorrerá de forma gradual. Segundo ela, o primeiro trecho da intervenção contempla apenas sete exemplares. “Se o Ministério Público entender que as árvores não devem ser retiradas, não retiraremos. Se concluir que está tudo regular, executaremos o que foi planejado”, declarou.
Saiba mais: cronologia e detalhes técnicos
No último dia 20 de maio, as equipes da Prefeitura de Goiânia iniciaram os trabalhos de supressão de árvores na Alameda das Rosas. A reação da vizinhança e dos frequentadores do parque foi imediata. Moradores relataram que o início da derrubada das árvores abriu clarões no local, o que compromete a formação de sombras e o frescor que a área oferece à população, especialmente nos períodos mais quentes do dia. Em pouco tempo, grupos de mobilização nas redes sociais já reuniam dezenas de pessoas indignadas.
Suspensão
Dois dias depois, em 22 de maio, após reunião de um grupo de trabalho integrado por especialistas, entidades ligadas à questão ambiental e paisagística e representantes da própria Amma, os trabalhos de corte foram suspensos. A presidente do órgão, Zilma Peixoto, concordou com a elaboração de um laudo independente por parte de técnicos que contestam o parecer da agência. A condição estabelecida: que o documento fosse apresentado com urgência e acompanhado da devida Anotação de Responsabilidade Técnica (ART).
Logo na sequência, no dia 23 de maio, o prefeito Sandro Mabel reconheceu publicamente que o início da derrubada das árvores foi precipitado, ao considerar o tipo de impacto provocado. Ainda assim, o chefe do Executivo Municipal defendeu a necessidade de retirada de alguns exemplares e condicionou a manutenção de outros à apresentação de laudo técnico independente, com responsabilidade formal dos signatários.
Protesto e ação do MP
No dia 24 de maio, um domingo, um protesto foi realizado. Moradores e frequentadores do Parque Lago das Rosas se reuniram em frente à entrada do Zoológico de Goiânia para uma caminhada em defesa das árvores.
Em seguida, o Ministério Público passou a atuar no caso. O promotor de Justiça Marcelo Fernandes de Melo apresentou pedido de tutela de urgência na Vara da Fazenda Pública Municipal para barrar a remoção das árvores no Lago das Rosas.
O representante do MP-GO apontou a ausência de estudos ambientais detalhados e o fato de que a lista de exemplares a serem suprimidos incluía mudas e espécimes jovens.
Parecer da Amma
O Parecer Técnico nº 632/2026 foi assinado pelo biólogo Leandro Georges de Paula, pela bióloga Wanessa Carolina Silva de Castro e pela engenheira agrônoma Jarina Padial Machado, todos da Gerência de Arborização (Gerarb) da Amma, e referendado pelo diretor da Diretoria de Áreas Verdes e Unidades de Preservação e Conservação Ambiental (Dirapa), Luciano Carlos de Andrade.
No documento, os profissionais recomendam o corte de 48 exemplares arbóreos distribuídos em três trechos ao longo do entorno do Parque Lago das Rosas. As justificativas apresentadas pela Amma no parecer técnico incluem comprometimento fitossanitário, ataque do coleóptero Euchroma gigantea, presença de fungos, cupins, necroses, conflito com fiação elétrica e, em parte dos casos, necessidade de abertura de espaço para estruturas do projeto de revitalização, como os denominados pet places.
Como contrapartida ambiental, o parecer prevê o plantio de 112 mudas de diversas espécies ao longo do parque. O projeto tem previsão de uso de recursos de compensação ambiental provenientes da empresa privada responsável pela revitalização do Lago das Rosas.
