segunda-feira, 28 de setembro de 2026
CIDADES

Setor Sul: arquitetura e tradição em Goiânia

O Setor Sul de Goiânia nasceu nos primeiros planos da capital e foi concebido sob a influência do modelo de cidade-jardim. Ao longo das décadas, o bairro passou por mudanças, mas preserva marcas importantes da arquitetura, do urbanismo e da memória de Goiânia.

O Setor Sul de Goiânia ocupa um lugar particular na história urbana da capital. Planejado ainda na década de 1930, quando Goiânia começava a ser construída, o bairro foi concebido com ruas curvas, áreas verdes, praças internas e espaços voltados à convivência. A proposta estava associada ao modelo de cidade-jardim, uma referência urbanística que buscava combinar moradia, paisagismo e menor adensamento.

Ao longo do tempo, o projeto original foi alterado pela expansão da cidade, pela abertura de novas vias, pela ocupação dos espaços públicos e pela substituição de parte das construções. Mesmo assim, o Setor Sul preserva elementos que ajudam a compreender as ideias que orientaram a criação da nova capital de Goiás e as contradições entre o planejamento e a ocupação efetiva do território. (repositorio.bc.ufg.br)

Um bairro previsto no nascimento de Goiânia

Goiânia foi planejada a partir de 1933, em um contexto de modernização política e administrativa de Goiás. A transferência da capital para uma nova cidade representava o desejo de criar um centro urbano capaz de simbolizar o progresso e reorganizar o território estadual. O plano inicial distribuiu setores ao redor do núcleo central, tendo a Praça Cívica como referência.

O Setor Sul apareceu desde os primeiros estudos de implantação da cidade. O arquiteto Attilio Corrêa Lima, responsável pelo plano inicial de Goiânia, organizou a estrutura básica da nova capital. Depois, o engenheiro Armando Augusto de Godoy participou da revisão dos projetos e desenvolveu uma proposta específica para o Setor Sul, com inspiração nas cidades-jardins inglesas e norte-americanas. (revistas.ufpr.br)

A ideia era criar um bairro predominantemente residencial, com baixa densidade, arborização e caminhos que favorecessem a circulação de pedestres. O sistema de áreas verdes deveria funcionar como parte da estrutura urbana, e não apenas como decoração. Praças, alamedas e espaços livres foram pensados para aproximar os moradores e estabelecer uma relação mais equilibrada entre edificações e natureza.

O modelo de cidade-jardim

O conceito de cidade-jardim surgiu na Inglaterra, no fim do século 19, como uma reação às condições precárias e ao congestionamento das cidades industriais. A proposta defendia núcleos urbanos planejados, com moradias, áreas verdes, vias bem distribuídas e limites para o crescimento desordenado.

Em Goiânia, esse modelo foi adaptado às condições locais e às expectativas de uma capital que ainda estava sendo aberta no interior do Brasil. No Setor Sul, a aplicação do conceito aparece no desenho das ruas, na presença de áreas destinadas a jardins e praças e na separação entre espaços residenciais e vias de maior circulação.

O bairro, no entanto, não foi implantado de maneira integral e imediata. Pesquisas sobre sua formação indicam que a ocupação residencial se consolidou principalmente entre as décadas de 1950 e 1960, quando Goiânia já apresentava crescimento populacional e expansão de suas atividades econômicas. A distância em relação ao núcleo inicial e a demora na implantação de infraestrutura contribuíram para retardar a ocupação. (repositorio.bc.ufg.br)

Entre o projeto e a ocupação

A história do Setor Sul é marcada pela diferença entre o desenho planejado e a forma como o bairro se desenvolveu. O projeto previa uma rede articulada de áreas verdes e caminhos internos, mas vários desses espaços foram ocupados, cercados ou transformados ao longo das décadas.

O crescimento de Goiânia pressionou o bairro a assumir novas funções. Vias que deveriam atender principalmente à circulação local passaram a receber tráfego mais intenso. A valorização da região estimulou mudanças no padrão de ocupação, com a substituição de casas por edifícios e estabelecimentos comerciais em determinados trechos.

Estudos acadêmicos descrevem esse processo como uma transformação de bairro residencial planejado em centralidade urbana. A mudança ampliou a importância econômica e territorial do Setor Sul, mas também reduziu parte da continuidade do sistema de espaços públicos imaginado pelos projetistas. (tede2.pucgoias.edu.br)

Em legislação municipal publicada em 1992, o Setor Sul foi incluído entre as áreas que deveriam passar por estratégias de recuperação de seu caráter histórico e restauração do traçado urbanístico, com referência à concepção original do bairro. O registro mostra que a preservação do desenho urbano já era tratada como uma questão relevante para o planejamento de Goiânia. (goiania.go.gov.br)

Arquitetura além do Art Déco

Quando se fala em arquitetura histórica de Goiânia, o Art Déco costuma ocupar o centro das atenções. O estilo está fortemente associado ao núcleo pioneiro e aos edifícios públicos construídos durante a implantação da capital. No Setor Sul, porém, a paisagem arquitetônica apresenta outras camadas.

O bairro reúne casas e edifícios associados ao modernismo brasileiro, especialmente construções realizadas entre o fim da década de 1950 e a década de 1960. São comuns volumes horizontais, formas simplificadas, grandes vãos, integração entre áreas internas e externas e o uso de materiais variados nos acabamentos.

Levantamentos sobre a arquitetura moderna em Goiânia apontam que muitas dessas residências foram influenciadas pelo repertório modernista, mas adaptadas às condições econômicas e tecnológicas disponíveis na cidade. Por isso, algumas construções apresentam uma interpretação local do moderno, combinando soluções funcionais, elementos decorativos e materiais encontrados no mercado regional. (portal.iphan.gov.br)

Essa diversidade ajuda a diferenciar o Setor Sul de uma área formada por um único estilo arquitetônico. O bairro pode ser lido como uma sucessão de períodos: o planejamento dos anos 1930, a ocupação residencial das décadas seguintes, a consolidação das casas modernas e as transformações mais recentes provocadas pela verticalização e pela mudança no uso dos imóveis.

A Praça do Cruzeiro e a ideia de convivência

A Praça Comendador Germano Roriz, conhecida como Praça do Cruzeiro, foi planejada para funcionar como um ponto de referência do Setor Sul. A proposta previa que o espaço tivesse papel central na vida do bairro, reunindo circulação, comércio, serviços e convivência comunitária.

A localização da praça também revela a lógica do projeto urbano. Ruas e avenidas se conectam a partir de seu entorno, reforçando sua função como espaço de encontro e orientação. Em materiais educativos da rede municipal, a praça é descrita como um dos pontos concebidos para organizar os fluxos e reunir atividades importantes para os moradores.

Com o passar do tempo, a praça sofreu mudanças e enfrentou problemas de conservação e uso. Intervenções posteriores buscaram recuperar sua função como espaço de convivência, com equipamentos destinados à permanência e ao lazer. A trajetória da Praça do Cruzeiro acompanha, em escala reduzida, a própria história do Setor Sul: um projeto comunitário que precisou se adaptar às pressões da cidade em crescimento. (sme.goiania.go.gov.br)

Instituições e memória urbana

O Setor Sul também se relaciona com instituições que fazem parte da memória cultural de Goiânia. Um diagnóstico de patrimônio elaborado com participação do município e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registra o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, construído em 1937, como a primeira construção identificada no bairro.

A presença de uma instituição voltada à preservação da memória em uma área ainda em formação evidencia a importância simbólica atribuída ao setor desde os primeiros anos da capital. O bairro passou a reunir, além de residências, equipamentos culturais e espaços ligados à produção intelectual e artística de Goiás.

Outro marco cultural associado ao Setor Sul é o Centro Cultural Martim Cererê. O espaço ocupa uma área que teve usos anteriores ligados ao abastecimento de água e, posteriormente, foi adaptada para atividades culturais. Hoje, o local integra a paisagem cultural da região e reforça a relação entre patrimônio, arquitetura e vida urbana. (goiania.go.gov.br)

Áreas verdes e desafios de preservação

As áreas verdes são parte essencial da identidade do Setor Sul. Elas estavam no centro da proposta de bairro-jardim e deveriam contribuir para o conforto ambiental, a circulação de pedestres e a convivência entre os moradores.

Na prática, a preservação desses espaços enfrentou dificuldades. O crescimento urbano, a ocupação de áreas originalmente livres, a abertura de novas vias e a mudança nas regras de uso do solo alteraram a relação entre o bairro e seus espaços públicos. Pesquisas sobre o Setor Sul apontam que a descaracterização não ocorreu de uma só vez, mas por meio de transformações acumuladas ao longo do tempo.

Esse processo não significa que o bairro tenha perdido todos os elementos de seu projeto inicial. O traçado viário, a presença de áreas arborizadas, a escala de algumas ruas e a permanência de casas antigas ainda permitem identificar a concepção urbanística original. O desafio está em preservar esses componentes sem impedir que o bairro continue integrado à cidade contemporânea.

Um patrimônio vivo de Goiânia

O Setor Sul não é apenas uma área antiga de Goiânia. Sua importância está na combinação entre história, arquitetura, paisagismo e formas de ocupação que mudaram com o tempo. O bairro registra o momento em que a capital foi imaginada como uma cidade moderna e planejada, mas também mostra os limites de qualquer projeto urbano diante do crescimento populacional e das mudanças econômicas.

A preservação do Setor Sul depende da valorização de diferentes tipos de patrimônio. Isso inclui casas e edifícios, mas também ruas, praças, árvores, caminhos, instituições culturais e memórias dos moradores. A arquitetura do bairro não pode ser compreendida separadamente do desenho urbano que lhe dá sentido.

Ao percorrer suas ruas, é possível perceber a sobreposição de épocas que formou Goiânia: a cidade planejada dos anos 1930, a expansão das décadas seguintes, o modernismo residencial e a centralidade urbana atual. É essa combinação que faz do Setor Sul um dos lugares mais expressivos para entender a história e a tradição arquitetônica da capital goiana.