O Setor Campinas é um dos bairros mais tradicionais de Goiânia e ocupa uma posição singular na história da capital. Sua origem é anterior à criação da cidade planejada por Pedro Ludovico Teixeira e remonta ao início do século 19, quando a região ainda era conhecida como Campininha das Flores.
Antes de ser incorporado à estrutura urbana de Goiânia, Campinas teve trajetória própria. Foi arraial, vila e município de Goiás. A construção da nova capital alterou profundamente sua função e sua paisagem, mas não eliminou a identidade formada ao longo de mais de dois séculos. O bairro preserva referências religiosas, comerciais, urbanas e culturais que ajudam a explicar a formação de Goiânia.
Uma comunidade formada antes de Goiânia
A formação de Campinas é situada em 1810 por registros históricos utilizados pela Prefeitura de Goiânia e por estudos acadêmicos sobre a paisagem urbana do bairro. Naquele período, o núcleo era identificado como Arraial de Campinas e se desenvolveu em uma área marcada por atividades rurais, circulação de pessoas e ocupação gradual do território.
O povoado cresceu em torno de relações comunitárias, da produção agrícola e de caminhos que ligavam diferentes pontos do então território goiano. A denominação Campininha das Flores, lembrada por moradores antigos, passou a fazer parte da memória local e ainda é usada para identificar espaços e iniciativas culturais ligados ao bairro.
O crescimento do núcleo foi acompanhado pela organização religiosa e administrativa. A Igreja Matriz de Campinas tornou-se uma das principais referências da comunidade, assim como a Praça Joaquim Lúcio, que permanece associada à história e à vida cotidiana da região.
De arraial a município
Ao longo do século 20, Campinas deixou de ser apenas um povoado e passou a ocupar posição administrativa mais importante. A localidade foi elevada à condição de vila em 1907 e, em 1914, tornou-se município, segundo levantamentos históricos sobre a trajetória do antigo núcleo.
Essa fase consolidou Campinas como uma comunidade com estrutura própria, relações comerciais e vida social organizada. O território incluía áreas que posteriormente seriam transformadas pela expansão de Goiânia e pelo surgimento de novos bairros. A cidade de Campinas, naquele momento, existia antes da capital planejada que seria implantada na mesma região.
A mudança de escala ocorreu na década de 1930. Em janeiro de 1933, uma comissão criada pelo governo de Pedro Ludovico Teixeira avaliou localidades que poderiam receber a nova capital de Goiás. Campinas estava entre as áreas analisadas. Em 18 de maio daquele ano, o Decreto Estadual nº 3.359 determinou a escolha de uma região situada às margens do Córrego Botafogo, dentro do então município de Campinas, para a construção de Goiânia. A trajetória da mudança é apresentada pela Prefeitura de Goiânia.
A construção de Goiânia transforma o bairro
A instalação da nova capital provocou mudanças no cotidiano de Campinas. O antigo município passou a conviver com obras, abertura de caminhos, chegada de trabalhadores, circulação de mercadorias e crescimento populacional. A antiga comunidade, que tinha dinâmica própria, começou a se integrar ao projeto urbano de Goiânia.
O processo não ocorreu de forma imediata nem significou o desaparecimento da identidade campineira. Campinas manteve suas referências, seus espaços religiosos e suas relações de vizinhança, enquanto a nova capital avançava ao seu redor. Com o tempo, a localidade passou a ser reconhecida como um bairro de Goiânia, posição que consolidou a ligação entre a história anterior da região e a expansão urbana da capital.
Estudos sobre a transformação da paisagem de Campinas apontam que a passagem de cidade para bairro aconteceu no contexto da construção de Goiânia, especialmente a partir de meados da década de 1930. A mudança alterou o traçado, o uso das áreas e o perfil das atividades econômicas, mas conservou elementos de continuidade histórica.
A área de Campinas também teve importância para a própria implantação de Goiânia. O bairro funcionou como um núcleo pioneiro já estabelecido, com moradores, comércio, instituições religiosas e caminhos utilizados antes da fundação da capital. Por isso, a história de Goiânia não pode ser contada apenas a partir dos primeiros edifícios do centro planejado. Ela também passa pelo antigo núcleo campineiro.
Comércio e vida urbana
Com a expansão da capital, o Setor Campinas consolidou-se como uma das principais áreas comerciais de Goiânia. A Avenida 24 de Outubro tornou-se um dos eixos mais conhecidos do bairro, reunindo estabelecimentos variados e conectando Campinas a outras regiões da cidade.
O comércio de rua contribuiu para preservar uma dinâmica urbana própria. Diferentemente de áreas exclusivamente residenciais, Campinas combinou moradia, serviços, circulação intensa e atividades econômicas diversificadas. Essa característica ajudou a manter o bairro como destino de moradores de diferentes partes de Goiânia.
Outro símbolo dessa trajetória é o Mercado de Campinas. A construção começou em setembro de 1954, durante a administração do prefeito Venerando de Freitas Borges, e a inauguração ocorreu em 29 de janeiro de 1955. Durante muitos anos, o mercado foi um centro de abastecimento para Campinas e bairros vizinhos, com mercearias, bares e açougues mantidos por pequenos comerciantes.
Com a chegada e a expansão das grandes redes de supermercados, o perfil do mercado mudou. Ainda assim, o espaço preservou importância na memória urbana e na identidade comercial do bairro. Atualmente, continua associado à tradição de Campinas e à oferta de produtos, alimentos e serviços. Informações institucionais sobre sua história estão disponíveis na página de mercados municipais de Goiânia.
Patrimônio histórico e referências culturais
A importância de Campinas não está apenas em sua antiguidade. O bairro reúne referências materiais e imateriais que ajudam a contar a história da formação de Goiânia. Entre elas estão a Igreja Matriz, a Praça Joaquim Lúcio, o antigo traçado urbano e as tradições preservadas por moradores e comerciantes.
O núcleo pioneiro de Campinas integra o conjunto de referências históricas reconhecidas na capital. Em 2002, bens relacionados ao núcleo histórico de Goiânia e de Campinas foram incluídos em processo de proteção pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan. A medida alcançou edifícios, espaços urbanos e elementos associados à formação inicial da cidade.
A preservação não se limita às fachadas ou aos edifícios antigos. A memória de um bairro também aparece em práticas cotidianas, festas religiosas, formas de comércio, nomes de ruas, relatos de moradores e modos de ocupação dos espaços públicos. Em 2009, uma lei municipal criou diretrizes para a instalação de um museu voltado ao patrimônio histórico, artístico e cultural do bairro de Campinas e previu instrumentos de registro de bens materiais e manifestações imateriais.
A Praça Joaquim Lúcio também ganhou novas funções culturais ao longo do tempo. O local abriga um museu ao ar livre com esculturas e painéis, iniciativa que ampliou o uso da praça e reforçou sua relação com a memória artística de Goiânia. A praça é citada em roteiros turísticos oficiais da cidade.
Campinas na memória dos moradores
Para além dos registros oficiais, a identidade do Setor Campinas foi construída pelas gerações que viveram no bairro. A presença de famílias antigas, pequenos negócios, igrejas, escolas, feiras e espaços de convivência contribuiu para formar uma memória coletiva própria.
O uso do nome Campininha das Flores é um exemplo dessa permanência. A expressão remete ao antigo núcleo e continua presente em referências populares, atividades culturais e denominações de espaços. Ela funciona como uma ligação entre a Campinas anterior à capital e o bairro integrado à Goiânia contemporânea.
Essa continuidade também aparece na relação entre o comércio e a vida comunitária. Muitos estabelecimentos se tornaram pontos conhecidos por diferentes gerações, enquanto ruas e praças mantiveram funções de encontro e circulação. Mesmo com a verticalização e as mudanças no trânsito, Campinas preservou uma escala urbana marcada pela presença das pessoas nas calçadas e nos corredores comerciais.
Um bairro tradicional em transformação
Como outras áreas antigas de Goiânia, o Setor Campinas passou por mudanças físicas e econômicas. A substituição de imóveis, a adaptação de edificações para atividades comerciais e o aumento do fluxo de veículos alteraram parte da paisagem original. Ao mesmo tempo, a expansão da cidade fez do bairro uma área estratégica para o comércio e os serviços.
Esse processo criou um desafio permanente: conciliar a modernização urbana com a preservação das referências históricas. A proteção do patrimônio depende da conservação dos edifícios, da valorização das praças, do registro das memórias e da continuidade das atividades que dão sentido ao lugar.
O reconhecimento de Campinas como um núcleo anterior à própria capital reforça a necessidade de compreender o bairro dentro da história de Goiânia. Sua importância não se resume ao fato de ser antigo. Campinas foi parte da formação territorial da cidade, participou da transição para a nova capital e continuou exercendo papel relevante na vida urbana goianiense.
Por isso, o Setor Campinas permanece como um dos bairros mais tradicionais de Goiânia. Entre a Igreja Matriz, a Praça Joaquim Lúcio, a Avenida 24 de Outubro, o Mercado de Campinas e as lembranças da Campininha das Flores, o bairro reúne diferentes tempos da história de Goiás. É, ao mesmo tempo, um antigo núcleo de povoamento, um centro comercial ativo e um espaço de memória da capital.





