segunda-feira, 28 de setembro de 2026
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Como Goiânia foi planejada para ser a nova capital de Goiás

Goiânia foi planejada a partir de 1933 para substituir a Cidade de Goiás como capital do estado. O projeto urbanístico de Attilio Corrêa Lima e a revisão de Armando de Godoy organizaram a nova cidade com centro administrativo, áreas residenciais, zona industrial, avenidas radiais e espaços verdes.

Goiânia foi planejada para ser a nova capital de Goiás em um período de transformação política, econômica e territorial do estado. A proposta ganhou força depois da Revolução de 1930, quando Pedro Ludovico Teixeira assumiu o governo goiano como interventor federal e passou a defender a transferência da capital, então instalada na Cidade de Goiás.

A construção de uma nova cidade não era apenas uma mudança administrativa. O projeto pretendia aproximar o governo das regiões economicamente mais dinâmicas, estimular a ocupação do centro do estado e criar uma capital conectada às novas ideias de modernização urbana. O desenho de Goiânia foi elaborado para reunir funções administrativas, comerciais, residenciais e industriais em uma área planejada desde o início.

Por que Goiás decidiu mudar a capital

A antiga capital, conhecida historicamente como Vila Boa e atualmente chamada Cidade de Goiás, havia se desenvolvido durante o ciclo do ouro. Com o declínio da mineração, porém, outras áreas do estado passaram a ganhar importância econômica por causa da pecuária, da agricultura e das atividades comerciais.

A localização da antiga capital também era vista como um obstáculo à integração do território. O relevo acidentado, as dificuldades de acesso e a distância em relação às regiões de maior crescimento reforçavam o argumento de que Goiás precisava de uma sede administrativa mais conectada ao restante do estado.

Pedro Ludovico associava a mudança da capital à expansão econômica e à ocupação de áreas ainda pouco povoadas. A nova cidade deveria funcionar como um centro político e administrativo capaz de estimular estradas, comércio, serviços públicos e circulação de pessoas.

A proposta, entretanto, enfrentou oposição. Os críticos consideravam a transferência cara e desnecessária. Para o grupo político ligado à Revolução de 1930, a obra representava um investimento estratégico na reorganização de Goiás, e não apenas uma despesa pública. (goiania.go.gov.br)

Como foi escolhido o local da nova capital

Antes de definir o terreno, o governo estadual criou uma comissão para estudar as condições de diferentes áreas. Os trabalhos analisaram localidades como Bonfim, atual Silvânia, Pires do Rio e Campinas, então um povoado localizado próximo à área que viria a receber Goiânia.

Os estudos levaram em conta fatores como topografia, disponibilidade de água, condições climáticas, possibilidade de expansão e facilidade de ligação com outras regiões. O relatório final apontou uma área próxima a Campinas como a mais adequada para a construção da nova capital.

O local escolhido ficava nas proximidades do córrego Botafogo e abrangia áreas das fazendas Crimeia, Vaca Brava e Botafogo. A escolha foi formalizada pelo Decreto Estadual nº 3.359, de 18 de maio de 1933.

A posição oferecia espaço para uma cidade nova, com possibilidade de crescimento e organização dos seus principais equipamentos. Também permitia a implantação de avenidas largas, praças, edifícios públicos e bairros separados por funções, conforme os princípios urbanísticos adotados na época. (goiania.go.gov.br)

O papel de Attilio Corrêa Lima

O projeto urbanístico inicial foi confiado ao arquiteto, engenheiro, urbanista e paisagista Attilio Corrêa Lima, contratado em 1933. Ele ficou responsável por estabelecer a estrutura básica da nova capital, definindo o traçado das vias, a localização dos setores e a organização dos espaços públicos.

A pedra fundamental de Goiânia foi lançada em 24 de outubro de 1933, em local escolhido por Corrêa Lima. A data foi associada ao terceiro aniversário da Revolução de 1930, movimento político que havia levado Pedro Ludovico ao governo de Goiás.

O plano de Corrêa Lima organizava a cidade a partir de um núcleo central, onde ficariam os principais edifícios administrativos. A Praça Cívica foi concebida como centro político e simbólico da capital, com avenidas que partiam dela em diferentes direções.

Esse modelo ajudava a concentrar as funções de governo e, ao mesmo tempo, facilitava a ligação do centro com as demais áreas da cidade. As avenidas Goiás, Tocantins e Araguaia se tornaram elementos fundamentais desse desenho inicial.

O projeto também previa áreas abertas, jardins e praças. A presença de espaços verdes fazia parte da concepção de uma cidade moderna e organizada, com preocupação estética, circulação de ar, paisagismo e qualidade do ambiente urbano.

Divisão entre centro, bairros e zona industrial

O plano original estabelecia uma divisão funcional do território. O Setor Central concentraria atividades administrativas e comerciais. O Setor Norte seria destinado principalmente à indústria e às atividades ligadas à produção. Já o Setor Sul teria predominância residencial e receberia áreas ajardinadas e espaços destinados ao lazer.

A divisão não significava que cada região teria uma única função, mas orientava a ocupação da nova capital. A intenção era evitar a formação espontânea e desordenada de uma cidade sem infraestrutura, separando atividades que poderiam gerar conflitos ou exigir estruturas diferentes.

Campinas, que já existia antes da construção de Goiânia, foi incorporada ao projeto como uma espécie de núcleo ou cidade-satélite. A manutenção de sua identidade e de parte de sua estrutura ajudou a conectar a nova capital à ocupação anterior da região.

O plano previa ainda uma área urbana e outra suburbana, estabelecendo limites para a expansão inicial. A proposta foi desenhada para uma população de aproximadamente 50 mil habitantes, número que seria superado nas décadas seguintes.

Documentos municipais descrevem o projeto original como uma combinação dos trabalhos de Attilio Corrêa Lima e Armando Augusto de Godoy. A planta geral de urbanização, o arruamento e a divisão dos setores foram consolidados no primeiro plano oficial de Goiânia, aprovado em 1938 pelo Decreto-Lei nº 90-A. (goiania.go.gov.br)

A influência das cidades-jardim e do urbanismo moderno

O planejamento de Goiânia refletia ideias urbanísticas que circulavam no Brasil e no exterior durante as primeiras décadas do século 20. Entre elas estavam a valorização das áreas verdes, a criação de bairros com funções definidas e o uso de avenidas amplas para estruturar o crescimento urbano.

A etapa posterior do projeto, desenvolvida por Armando de Godoy entre 1935 e 1937, incorporou referências associadas ao conceito de cidade-jardim, formulado pelo urbanista britânico Ebenezer Howard. A proposta defendia uma relação mais equilibrada entre construções, ruas, jardins e espaços de convivência.

Na arquitetura, a nova capital também adotou elementos do Art Déco, linguagem associada à modernidade e à representação de um novo período político. Edifícios públicos, monumentos e fachadas do centro de Goiânia passaram a expressar visualmente a ideia de uma capital moderna no interior do país.

O conjunto urbanístico e arquitetônico Art Déco de Goiânia foi posteriormente reconhecido e protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A preservação alcança edifícios, praças, monumentos e trechos do traçado original da cidade. (gov.br)

Da pedra fundamental à transferência da capital

O nome Goiânia foi oficializado em 2 de agosto de 1935. Antes disso, outras opções haviam sido discutidas para batizar a cidade, entre elas Petrônia. A denominação escolhida passou a identificar oficialmente a nova capital em formação.

A mudança administrativa ocorreu de forma gradual. Em dezembro de 1935, secretarias estaduais e setores do governo começaram a ser transferidos para Goiânia. Em 23 de março de 1937, um decreto determinou oficialmente a transferência da capital da Cidade de Goiás para a nova cidade.

A inauguração oficial de Goiânia foi realizada em 5 de julho de 1942, durante o chamado Batismo Cultural. O evento reuniu autoridades e marcou a consolidação simbólica da capital como sede do governo estadual.

O processo, portanto, não se resumiu à construção de edifícios. Envolveu a criação de uma estrutura urbana completa, com ruas, praças, serviços, bairros e órgãos públicos. A implantação da cidade avançou gradualmente, enquanto o governo buscava atrair moradores, trabalhadores, comerciantes e instituições.

O que mudou com o crescimento da cidade

O planejamento inicial foi importante para organizar a formação de Goiânia, mas a cidade cresceu em ritmo mais acelerado do que o previsto. A chegada da estrada de ferro, em 1951, a expansão das atividades econômicas e a construção de Brasília contribuíram para aumentar o fluxo de pessoas e investimentos na região.

O limite estimado de 50 mil habitantes foi ultrapassado. A expansão urbana ganhou velocidade especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960, quando novos bairros surgiram e a ocupação passou a avançar para áreas mais distantes do núcleo planejado.

Com o crescimento, parte das diretrizes originais perdeu força. A abertura de loteamentos periféricos, a expansão horizontal e a necessidade de ampliar a infraestrutura fizeram com que Goiânia se afastasse do desenho inicial em alguns pontos.

Isso não eliminou as marcas do planejamento original. O centro cívico, as avenidas radiais, os setores organizados e os espaços verdes continuam ajudando a explicar como a capital foi concebida. Ao mesmo tempo, a expansão posterior revela os limites de um plano pensado para uma cidade menor diante do crescimento populacional e econômico do estado.

Como reconhecer o planejamento original de Goiânia

Quem observa a região central pode identificar alguns dos principais elementos do projeto inicial. A Praça Cívica permanece como referência do núcleo administrativo. As avenidas que partem ou se articulam com o centro mostram a lógica radial adotada no traçado urbano.

Também é possível perceber a distribuição dos setores, a presença de praças e a relação entre edifícios públicos e espaços abertos. O Setor Central concentra parte expressiva do patrimônio Art Déco, enquanto áreas como Campinas preservam referências da ocupação anterior à construção da nova capital.

Para estudar o tema, vale consultar os registros históricos disponibilizados pela Prefeitura de Goiânia, a documentação reunida pela Casa Civil do Governo de Goiás e as informações do Iphan sobre o patrimônio Art Déco.

Goiânia foi, assim, resultado de uma decisão política e de um projeto urbano articulado. A cidade nasceu para substituir uma capital histórica, mas também para representar a modernização de Goiás. Seu traçado combina a centralidade do poder público, a separação de funções, a abertura de grandes avenidas e a valorização de áreas verdes — elementos que ainda ajudam a contar a história de como a nova capital foi planejada.