Os bairros mais antigos de Goiânia revelam duas origens diferentes da capital de Goiás. De um lado, está Campinas, povoado formado antes da construção da nova capital e incorporado ao município goianiense na década de 1930. De outro, aparecem os setores desenhados ou ocupados durante a implantação de Goiânia, criada para substituir a Cidade de Goiás como sede do governo estadual.
Por isso, não existe apenas um critério para definir qual é o bairro mais antigo de Goiânia. Campinas é o núcleo urbano mais antigo associado à atual capital. Já o Setor Central corresponde ao primeiro núcleo planejado da cidade construída a partir de 1933. Outros bairros, como Vila Nova, Setor Leste Universitário, Setor Sul, Setor Coimbra e Setor Pedro Ludovico, cresceram nas primeiras décadas de expansão urbana.
Campinas, o núcleo urbano anterior a Goiânia
Campinas é geralmente reconhecido como o bairro mais antigo de Goiânia porque sua história começou antes da fundação da capital. A formação do povoado conhecido como Campininha das Flores remonta a 1810, segundo registros municipais. Durante o século XIX, o local se consolidou como uma comunidade independente, com atividades religiosas, comércio e circulação de moradores da região.
Quando o governo de Pedro Ludovico Teixeira retomou o projeto de mudança da capital, Campinas já existia. Em janeiro de 1933, uma comissão estadual avaliou possíveis áreas para a construção da nova sede administrativa. Entre os locais analisados estava o município de Campinas, que apresentava condições consideradas favoráveis para a expansão urbana.
O decreto estadual nº 3.359, de 18 de maio de 1933, determinou a escolha da área onde seria erguida Goiânia. O terreno ficava nas proximidades dos córregos Botafogo e Capim Puba e abrangia áreas das antigas fazendas Crimeia, Vaca Brava e Botafogo. A nova cidade começou a ser construída no entorno do antigo núcleo de Campinas.
A chegada das obras mudou a rotina do povoado. Campinas passou a oferecer comércio, hospedagem, serviços e abastecimento para trabalhadores, técnicos, comerciantes e funcionários envolvidos na implantação da capital. Com a expansão de Goiânia, deixou de ser um município separado e foi incorporado à nova cidade.
A Praça Joaquim Lúcio, onde está o Coreto de Campinas, é um dos principais símbolos desse passado. O espaço era um ponto de encontro da antiga comunidade campinense. A Igreja Matriz e o casario tradicional também ajudam a identificar a permanência de referências anteriores à fundação de Goiânia.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional inclui Campinas no conjunto protegido do acervo Art Déco e urbanístico de Goiânia. A área preservada reúne elementos do antigo traçado de Campinas e da cidade planejada que surgiu ao seu redor. O roteiro turístico da Prefeitura de Goiânia destaca o Coreto de Campinas e a Praça Joaquim Lúcio como lugares ligados à memória da capital.
Setor Central, o primeiro núcleo planejado
O Setor Central representa o coração do projeto original de Goiânia. A área foi planejada pelo arquiteto Attilio Corrêa Lima, responsável pelo desenho inicial da nova capital. O traçado partia da Praça Cívica e organizava avenidas e ruas em uma estrutura pensada para concentrar os edifícios públicos e as principais funções administrativas.
A Praça Cívica foi concebida como centro político da nova capital. Ao redor dela foram construídos edifícios destinados ao governo estadual, enquanto as avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins estruturaram a ligação entre a praça e outras áreas do município.
O crescimento da cidade transformou o Centro em área de comércio, serviços, transporte e cultura. A região também recebeu edifícios em estilo Art Déco, linguagem arquitetônica associada à modernização de Goiânia nas décadas de 1930 e 1940.
O conjunto protegido pelo Iphan inclui edifícios públicos, monumentos, trechos do traçado urbano e referências dos núcleos pioneiros. Entre os bens associados ao Centro estão o Palácio das Esmeraldas, o Teatro Goiânia, a antiga Estação Ferroviária, o Grande Hotel e a Torre do Relógio.
O Setor Central, portanto, não é apenas uma área comercial. Ele concentra marcas do nascimento institucional de Goiânia e permite observar como a cidade planejada se organizou em torno do poder público, das avenidas monumentais e dos primeiros equipamentos urbanos.
Vila Nova e a ocupação dos trabalhadores
O Setor Leste Vila Nova está entre os bairros mais antigos formados durante os primeiros anos de Goiânia. A história do bairro está associada à ocupação de áreas por trabalhadores que chegaram para participar da construção da capital e por famílias vindas de diferentes regiões.
Ao contrário do Centro, concebido a partir de um plano urbano oficial, a Vila Nova teve forte presença de ocupações populares. A formação do bairro expressa uma característica comum às cidades planejadas: enquanto os edifícios públicos e as áreas administrativas seguiam projetos definidos, a população trabalhadora criava moradias e redes de vizinhança nas áreas disponíveis.
Com o tempo, a Vila Nova se consolidou como uma área residencial e comercial. A Quinta Avenida tornou-se um de seus principais eixos, concentrando lojas, serviços e circulação de moradores. O Mercado Vila Nova, que iniciou suas atividades em 1957, também se tornou uma referência do bairro e ajudou a fortalecer o abastecimento da região.
A memória da Vila Nova é preservada sobretudo por relatos de moradores, estudos acadêmicos e espaços de convivência. Sua história mostra que a construção de Goiânia não ocorreu apenas nos palácios e nas avenidas planejadas, mas também nas casas, nos comércios e nas redes de solidariedade criadas pelos primeiros habitantes.
Setor Leste Universitário e a expansão para o leste
O Setor Leste Universitário faz parte do conjunto de áreas concebidas no período inicial de implantação da capital. Sua localização próxima ao Centro favoreceu a expansão urbana para o lado leste e, posteriormente, a instalação de equipamentos educacionais e culturais.
A Praça Universitária se tornou o principal símbolo do setor. Embora tenha sido projetada na década de 1930, a praça só foi construída em 1969. O espaço passou a se relacionar com a presença de instituições de ensino e com a circulação de estudantes, professores e trabalhadores.
O bairro também abriga o Museu ao Ar Livre, instalado na Praça Universitária e inaugurado em 2000. O conjunto reúne esculturas e painéis de artistas ligados à produção cultural de Goiás. A presença do museu reforça a relação do setor com a educação, a arte e a vida universitária.
O Setor Leste Universitário demonstra como áreas previstas no plano inicial de Goiânia ganharam funções diferentes ao longo do tempo. O que começou como parte da expansão urbana tornou-se uma centralidade associada ao ensino, à cultura e aos serviços.
Setor Sul e a paisagem das primeiras décadas
O Setor Sul também pertence ao grupo de bairros tradicionais da capital. Sua ocupação ocorreu durante a expansão de Goiânia para além do núcleo administrativo. O bairro preserva referências do planejamento urbano das primeiras décadas e está ligado à formação de áreas residenciais próximas ao Centro.
Entre os elementos históricos associados ao setor está a Praça do Cruzeiro. O local recebeu um cruzeiro instalado nas terras da antiga Fazenda Botafogo, ponto relacionado à celebração da primeira missa de Goiânia. O monumento também funcionava como referência para quem se deslocava entre a região sudoeste e Campinas.
Na década de 1950, o cruzeiro foi substituído por uma estrutura de concreto, instalada na praça que passou a ser conhecida popularmente pelo mesmo nome. A área se tornou uma das referências simbólicas da expansão da cidade.
Outro marco próximo é a Mureta e o Trampolim do Lago das Rosas, construídos em 1941 na ligação entre Campinas e Goiânia. O conjunto está associado à antiga represa formada na nascente do Córrego Capim Puba e integra o patrimônio Art Déco protegido em Goiânia.
Setor Coimbra, entre Campinas e a nova capital
O Setor Coimbra surgiu em uma área de transição entre Campinas e o núcleo planejado de Goiânia. Sua formação está relacionada ao crescimento da cidade e à necessidade de criar novas áreas residenciais próximas aos eixos de circulação.
A proximidade com Campinas fez com que o setor participasse da dinâmica comercial e social do bairro mais antigo. Ao mesmo tempo, sua expansão acompanhou a abertura de novas ruas e avenidas que conectaram o antigo povoado ao Centro e a outras regiões da capital.
O Setor Coimbra permanece como um dos bairros tradicionais da região central expandida. A presença de residências antigas, comércio de rua e vias de ligação ajuda a compreender como Goiânia ultrapassou os limites do projeto original nas décadas seguintes à fundação.
Setor Pedro Ludovico e a expansão ao sul
O Setor Pedro Ludovico está entre as áreas tradicionais da expansão de Goiânia para o sul. O bairro se desenvolveu com o crescimento populacional e com a abertura de novos loteamentos, em um período no qual a cidade já começava a ultrapassar o desenho inicial previsto pelos planejadores.
A região passou a receber moradores de diferentes origens e se integrou ao eixo formado por bairros como Setor Sul, Setor Bueno e áreas próximas ao Córrego Botafogo. A ocupação ocorreu de maneira gradual, acompanhando a implantação de infraestrutura, comércio e serviços.
O nome do bairro homenageia Pedro Ludovico Teixeira, governador responsável pela transferência da capital de Goiás e pela construção de Goiânia. A denominação reforça a ligação entre o setor e o processo político que deu origem à cidade.
Como outros bairros antigos, o Setor Pedro Ludovico foi transformado pela verticalização, pela abertura de avenidas e pela instalação de equipamentos urbanos. Ainda assim, sua formação permanece ligada à fase de consolidação da capital e à expansão residencial que marcou Goiânia a partir das primeiras décadas.
O que os bairros antigos revelam sobre Goiânia
A história dos bairros mais antigos de Goiânia mostra que a capital foi construída pela combinação entre planejamento estatal, ocupação popular e integração de núcleos preexistentes. Campinas trouxe uma comunidade formada antes da nova capital. O Centro expressou o projeto urbano e político do governo estadual. Vila Nova registrou a presença dos trabalhadores, enquanto os setores Sul, Universitário, Coimbra e Pedro Ludovico acompanharam a expansão da cidade.
Esses bairros também ajudam a entender a diversidade da paisagem goianiense. Praças, mercados, igrejas, avenidas, casas antigas, edifícios públicos e equipamentos culturais formam uma rede de referências que ultrapassa a arquitetura monumental.
Preservar essa memória depende não apenas da proteção de prédios históricos, mas também do reconhecimento das experiências dos moradores e das transformações sociais que deram forma à cidade. Em Goiânia, a história dos bairros continua visível no traçado das ruas, no comércio tradicional e nos espaços públicos que conectam a capital atual ao período de sua fundação.