A arborização do Setor Oeste de Goiânia é um dos elementos mais marcantes da paisagem de uma das áreas tradicionais da capital. Árvores de grande porte, praças, parques e canteiros ajudam a formar a identidade do bairro e revelam parte da história urbana de Goiânia.
Mais do que um componente estético, a vegetação está relacionada ao conforto térmico, à circulação de pessoas e à ocupação dos espaços públicos. No Setor Oeste, essa relação pode ser observada em locais como o Bosque dos Buritis, o Parque Lago das Rosas, a Praça Tamandaré, a Praça do Sol e a Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat, conhecida popularmente como Praça da Cirrose.
Uma pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG) sobre a formação do bairro mostra que esses espaços públicos funcionaram como elementos estruturantes da paisagem e da identidade local. O estudo analisou mapas, plantas, fotografias e registros históricos para reconstruir as transformações do Setor Oeste desde o planejamento inicial de Goiânia.
Um bairro ligado ao planejamento de Goiânia
Goiânia começou a ser construída na década de 1930, em um período de expansão urbana e de transferência da capital de Goiás para uma nova cidade. O projeto urbanístico inicial foi elaborado pelo arquiteto Attilio Corrêa Lima e previa uma estrutura com setores residenciais, áreas públicas e espaços destinados à vegetação.
O Setor Oeste começou a se formar nas décadas seguintes à inauguração da capital. De acordo com a pesquisa divulgada pelo Jornal UFG, o bairro já aparecia em esboços do plano urbano de Goiânia, mas teve seu desenho detalhado entre 1940 e 1942.
A arborização da cidade, no entanto, não surgiu de forma uniforme nem com base em um modelo ambiental consolidado. Segundo o Plano Diretor de Arborização Urbana de Goiânia, elaborado pela administração municipal, nas décadas de 1930 e 1940 havia pouca arborização nas ruas da capital. A vegetação se concentrava principalmente nas margens dos córregos e em áreas ainda não ocupadas.
Com a abertura de ruas e a criação dos primeiros setores, o plantio passou a fazer parte da organização urbana. Naquele momento, espécies exóticas eram utilizadas com frequência, em parte porque o cerrado ainda era pouco valorizado como referência paisagística e havia poucos estudos sobre espécies nativas adequadas para calçadas e praças.
Espécies exóticas marcaram o início da arborização
O histórico oficial da arborização de Goiânia registra o uso de flamboyants, fícus, espatódeas, alfeneiros e dilênias em diferentes ruas e avenidas da cidade. O flamboyant, por exemplo, foi plantado nas avenidas Araguaia e Tocantins. O fícus também ganhou espaço em áreas centrais.
Nas décadas seguintes, outras espécies passaram a ser utilizadas, como sibipirunas, cássias e saboneteiros. O plantio foi ampliado por ações do poder público e pela criação de viveiros destinados à produção de mudas.
O processo ajudou a criar a imagem de Goiânia como uma cidade marcada por árvores e áreas verdes. A arborização, entretanto, foi sendo construída ao mesmo tempo em que a cidade crescia, recebia novos moradores e transformava áreas originalmente livres em bairros, ruas e lotes.
O próprio Plano Diretor de Arborização Urbana aponta que o projeto inicial da cidade previa uma grande estrutura verde ao redor dos setores centrais. Com o crescimento populacional e a expansão urbana, parte dessas áreas foi ocupada ou modificada. O resultado foi uma paisagem formada por parques remanescentes, praças, corredores arborizados e árvores plantadas ao longo das décadas.
Parques e praças estruturam a paisagem do Setor Oeste
No Setor Oeste, a presença de áreas verdes não está restrita às calçadas. O bairro reúne espaços públicos que desempenham funções ambientais, paisagísticas, culturais e sociais.
O Bosque dos Buritis é considerado o mais antigo patrimônio paisagístico de Goiânia. A área passou por transformações ao longo do tempo e teve redução significativa em relação à extensão original, conforme a pesquisa da UFG. Ainda assim, permanece como uma das principais referências de vegetação e lazer da capital.
O parque também expressa as mudanças ocorridas na relação entre a cidade e suas áreas verdes. O crescimento urbano e a valorização imobiliária alteraram o entorno, mas o bosque continuou funcionando como um espaço de convivência e como um marco visual do Setor Oeste.
O Parque Lago das Rosas também ocupa posição importante nessa história. Inicialmente concebido como Horto Florestal, o espaço passou a abrigar posteriormente o Zoológico de Goiânia. Sua presença reforça a característica do bairro de reunir áreas de lazer e contato com a vegetação em meio à ocupação urbana.
As praças completam essa rede de espaços públicos. A Praça Tamandaré, por exemplo, consolidou-se como ponto de encontro e recebeu diferentes usos ao longo das décadas. Segundo a pesquisa da UFG, o local teve forte presença de atividades da juventude nos anos 1970 e 1980 e passou por reurbanização em 1988.
A Praça do Sol também se tornou uma referência do bairro. Além da arborização, o espaço é associado à Feira do Sol, enquanto a Praça Tamandaré recebe a Feira da Lua. Esses eventos mostram como a vegetação e o desenho das praças podem favorecer a permanência das pessoas e a realização de atividades culturais e comerciais.
Árvores antigas fazem parte da memória do bairro
Entre os exemplares mais conhecidos do Setor Oeste estão as quatro gameleiras da Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat. As árvores têm quase sete décadas e cresceram junto com diferentes fases da transformação de Goiânia.
As copas das gameleiras oferecem sombra e ajudam a definir a paisagem da praça. Para moradores, trabalhadores e frequentadores, elas também funcionam como pontos de referência. A presença de árvores antigas transforma o espaço público em um lugar reconhecível e contribui para a construção da memória coletiva.
Reportagem de A Redação registrou que as gameleiras passaram a ser discutidas também sob o ponto de vista da segurança e do manejo. Avaliações mencionaram riscos associados à queda de galhos e a possíveis danos, enquanto moradores destacaram os benefícios da sombra e do conforto proporcionados pelas árvores.
Em agosto de 2026, o Ministério Público de Goiás recomendou a suspensão do corte das gameleiras e a realização de uma nova avaliação, diante de divergências em documentos técnicos anteriores. A recomendação incluiu a análise de alternativas, como podas e tratamentos, antes de uma eventual retirada.
O caso evidencia um dos principais desafios da arborização urbana: conciliar a preservação de árvores adultas com a segurança de pessoas, imóveis e equipamentos públicos. Uma muda plantada atualmente pode levar muitos anos para atingir o porte e a capacidade de sombreamento de uma árvore madura.
Verticalização muda o entorno, mas mantém a importância da arborização
O Setor Oeste passou por intensa verticalização, especialmente a partir do fim da década de 1960 e ao longo dos anos 1980. A valorização dos terrenos e a expansão do mercado imobiliário alteraram o perfil das ruas e ampliaram a presença de edifícios.
Nas proximidades da Praça do Sol, a verticalização continua sendo observada como uma das marcas da transformação recente do bairro. A pesquisa da UFG aponta que novos empreendimentos imobiliários modificaram a escala construída da região, sem eliminar a importância dos espaços públicos e das áreas verdes.
Essa combinação entre edifícios, comércio, serviços, praças e parques produz uma paisagem diversificada. A arborização funciona como elemento de transição entre os diferentes usos do solo e ajuda a reduzir a dureza visual de uma área densamente ocupada.
O estudo da UFG identifica atualmente 13 praças e dois parques urbanos no Setor Oeste. Esses locais continuam sendo utilizados para lazer, circulação, feiras, encontros e atividades culturais. A pesquisa também destaca que os espaços públicos permanecem apropriados pela população mesmo diante das mudanças imobiliárias.
Plantios recentes reforçam a cobertura verde
A manutenção da arborização depende tanto da preservação de árvores antigas quanto da reposição de exemplares perdidos. Em dezembro de 2024, a Companhia de Urbanização de Goiânia informou o plantio de aproximadamente 550 mudas em canteiros centrais de avenidas da região Oeste.
Segundo a Comurg, a ação buscou repor falhas nos canteiros e ampliar a cobertura verde. Entre as espécies mencionadas estavam ipês, pau-ferro, jacarandá-mimoso, pau-brasil, pata-de-vaca, oitis e outras árvores ornamentais ou adaptadas às condições do cerrado.
O plantio foi realizado durante o período chuvoso, entre outubro e fevereiro, quando a umidade favorece o enraizamento e o desenvolvimento das mudas. A escolha das espécies e o acompanhamento posterior são etapas importantes para que as árvores consigam se desenvolver em calçadas, canteiros e áreas sujeitas à circulação intensa.
A legislação municipal também estabeleceu, ao longo das últimas décadas, regras para plantio, poda, extração e substituição de árvores. A Lei nº 7.009, de 23 de outubro de 1991, previa a apresentação de projetos de arborização para novos loteamentos e determinava a compatibilização entre árvores, calçadas, iluminação e redes de infraestrutura. Parte de seus dispositivos foi posteriormente revogada por legislação mais recente, mas o texto registra a evolução da preocupação pública com o planejamento da vegetação urbana.
Arborização é patrimônio ambiental e urbano
A história do Setor Oeste mostra que a arborização não é apenas um recurso paisagístico. As árvores influenciam o conforto térmico, a qualidade da experiência nas ruas, a biodiversidade e a forma como os moradores reconhecem os lugares.
Praças e parques também funcionam como pontos de convivência. Feiras, caminhadas, encontros e atividades culturais dependem de espaços públicos capazes de receber pessoas. Nesse contexto, a sombra e a presença de vegetação contribuem para tornar esses locais mais convidativos.
Ao mesmo tempo, a arborização exige planejamento contínuo. Árvores de grande porte precisam de avaliação técnica, podas adequadas, espaço suficiente para raízes e compatibilidade com redes elétricas, calçadas e edificações. O plantio de novas mudas deve considerar as características de cada via e o porte que a espécie poderá alcançar.
No Setor Oeste, a paisagem atual resulta da sobreposição de diferentes períodos: o planejamento inicial de Goiânia, a criação de praças e parques, a expansão urbana, a verticalização e as ações recentes de reposição de árvores. As copas que hoje cobrem ruas e praças ajudam a preservar uma parte visível dessa trajetória.
Por isso, o destaque do bairro pela arborização está ligado não apenas à quantidade de árvores, mas à relação entre vegetação, memória e vida urbana. No Setor Oeste, áreas verdes e árvores antigas continuam funcionando como referências de identidade em uma região que segue se transformando.