Goiânia tem tantos prédios em estilo Art Déco porque a cidade foi planejada e construída justamente no período em que esse movimento artístico e arquitetônico era associado à modernidade, à tecnologia e ao progresso. A nova capital de Goiás nasceu na década de 1930 com a missão de representar uma mudança política, econômica e urbana no estado. Para isso, adotou uma linguagem visual considerada moderna para a época.
O Art Déco não aparece apenas em fachadas isoladas. Em Goiânia, ele está presente em edifícios públicos, hotéis, escolas, teatros, monumentos, elementos urbanos e no próprio desenho de áreas centrais. Essa concentração é resultado de uma decisão arquitetônica e política tomada durante a formação da cidade, e não de uma substituição posterior de construções antigas.
O conjunto arquitetônico e urbanístico Art Déco de Goiânia reúne 22 edifícios e monumentos públicos protegidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em sua maioria localizados na região central. O tombamento reconhece o valor histórico, artístico e urbanístico desse conjunto. (gov.br)
Uma capital planejada para simbolizar o futuro
Antes de Goiânia, a capital de Goiás era a Cidade de Goiás, então chamada Goiás. A transferência da sede administrativa fazia parte de um projeto de reorganização do território estadual e de estímulo à ocupação de áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento econômico.
Goiânia foi fundada em 24 de outubro de 1933, durante a administração de Pedro Ludovico Teixeira. A cidade foi concebida como uma capital planejada, com ruas, avenidas, praças e edifícios públicos organizados desde o início. O planejamento urbano ficou associado aos nomes de Attílio Corrêa Lima e Armando de Godoy, que participaram da definição do traçado e da concepção da nova cidade. (gov.br)
O contexto nacional também foi importante. A construção da capital ocorreu durante o período de incentivo à ocupação e à integração do Centro-Oeste, política que ganhou força no governo de Getúlio Vargas. Nesse ambiente, uma cidade nova precisava comunicar eficiência administrativa, crescimento e integração territorial.
O Art Déco cumpria bem essa função. Suas linhas geométricas, formas simétricas, volumes marcados e ornamentos estilizados transmitiam uma imagem de ordem e modernidade. Por isso, o estilo foi escolhido para os primeiros prédios e para vários espaços representativos da nova capital.
O que é o estilo Art Déco
O Art Déco surgiu na Europa nas primeiras décadas do século 20 e influenciou a arquitetura, o design, a moda, o cinema, as artes gráficas e a decoração. O movimento ganhou força internacionalmente ao valorizar formas geométricas, linhas verticais, padrões repetitivos, simetria e uma ideia de elegância associada à vida moderna.
Na arquitetura, o estilo pode ser identificado por fachadas com composição rigorosa, frisos, relevos, elementos escalonados, marquises, linhas curvas ou retas e ornamentos abstratos. Em muitos edifícios, a decoração não elimina a funcionalidade: ela organiza visualmente a fachada e destaca entradas, janelas, torres e volumes principais.
Em Goiânia, o Art Déco recebeu adaptações locais. A linguagem foi aplicada a diferentes tipos de construção, desde prédios administrativos até hotéis, escolas e equipamentos culturais. Por isso, nem todos os edifícios apresentam exatamente os mesmos detalhes. O que os aproxima é a combinação entre geometria, monumentalidade, simetria e intenção de representar uma cidade moderna.
Por que o estilo foi usado em tantos edifícios
A concentração do Art Déco em Goiânia tem relação direta com o fato de a cidade ter sido construída praticamente do zero. Em centros urbanos mais antigos, diferentes períodos históricos costumam se sobrepor: igrejas coloniais, sobrados, edifícios ecléticos, construções modernas e prédios contemporâneos ocupam o mesmo espaço.
Goiânia, por outro lado, começou a ser formada em um intervalo relativamente curto. Como os primeiros edifícios públicos, avenidas e praças foram projetados dentro do mesmo contexto político e cultural, houve maior unidade de estilo. A arquitetura funcionava como parte de um programa de construção da nova capital.
Os edifícios públicos foram os primeiros a consolidar essa identidade. Depois, construções comerciais e privadas passaram a seguir a mesma tendência, reforçando a presença do Art Déco no centro. A própria Prefeitura de Goiânia afirma que, após a construção dos primeiros prédios públicos, edifícios comerciais também adotaram a linguagem, ampliando o conjunto arquitetônico da cidade. (goiania.go.gov.br)
Outro fator foi a necessidade de criar uma imagem distinta da antiga capital. A arquitetura colonial de Goiás estava associada a uma formação histórica anterior. Goiânia deveria representar uma ruptura simbólica com esse passado e se apresentar como uma cidade voltada ao futuro. Estudos sobre o patrimônio goiano relacionam a escolha do Art Déco justamente à intenção de abandonar a imagem do “velho” e afirmar uma ideia de progresso. (mapagoiano.cultura.go.gov.br)
A influência de Attílio Corrêa Lima
Attílio Corrêa Lima foi responsável pelo primeiro plano urbanístico de Goiânia e teve formação ligada ao urbanismo europeu. A experiência em Paris contribuiu para aproximá-lo das tendências arquitetônicas que circulavam naquele período, incluindo referências do Art Déco.
O traçado inicial da cidade foi organizado a partir da Praça Cívica, de onde partem importantes vias do centro. A composição radial e a hierarquia entre avenidas, praças e edifícios públicos ajudaram a formar uma paisagem urbana planejada. Nesse cenário, a arquitetura e o urbanismo trabalhavam juntos: o desenho das ruas conduzia aos edifícios institucionais, enquanto as fachadas reforçavam a imagem de centralidade e autoridade.
A influência do Art Déco, portanto, não deve ser observada apenas nos detalhes decorativos. Ela também aparece na maneira como os primeiros espaços da capital foram organizados. O centro foi concebido para concentrar funções administrativas, culturais, comerciais e simbólicas.
Quais são os principais prédios Art Déco de Goiânia
A Praça Cívica é um dos pontos mais importantes para observar o conjunto. Ao redor dela estão edifícios públicos construídos nas primeiras décadas da cidade, além de monumentos e elementos urbanos que ajudam a contar a história da formação da capital.
Entre os destaques estão o Palácio das Esmeraldas, sede do governo estadual; o Museu Pedro Ludovico Teixeira; o Centro Cultural Marieta Telles; o antigo prédio da Chefatura de Polícia; o antigo Tribunal Eleitoral e o Coreto da Praça Cívica. Muitos desses imóveis foram adaptados para novos usos ao longo do tempo, mas preservam características da arquitetura original.
O Teatro Goiânia, inaugurado em 1942, também é um dos principais exemplares do estilo. O Grande Hotel, a antiga Estação Ferroviária, o Colégio Estadual Lyceu de Goiânia e a Torre do Relógio da Avenida Goiás completam o conjunto mais conhecido pelos moradores e visitantes.
A Torre do Relógio, inaugurada em 1942, é um dos marcos visuais da Avenida Goiás. Sua composição reúne base, corpo e coroamento, com desenhos geométricos e ornamentos associados ao Art Déco. O equipamento foi projetado para ser visto de diferentes direções e se tornou uma referência da paisagem central. (goiania.go.gov.br)
O conjunto também inclui elementos menos lembrados, como fontes, obeliscos, muretas e o trampolim do Lago das Rosas. Isso mostra que a presença do Art Déco não se limita a grandes edifícios: ela também alcança equipamentos urbanos e espaços de convivência.
O tombamento protege quais características?
O tombamento é um instrumento de proteção do patrimônio cultural. Ele não transforma necessariamente o imóvel em museu nem impede todo tipo de uso. A principal função é evitar a destruição, a descaracterização ou alterações incompatíveis com o valor histórico e arquitetônico do bem.
No caso de Goiânia, o Iphan reconheceu um conjunto formado por edifícios, monumentos e pelo traçado urbano de áreas pioneiras. A proteção considera não apenas uma construção isolada, mas a relação entre os imóveis, as praças, as avenidas e a paisagem da cidade.
Na prática, intervenções em bens tombados precisam seguir regras específicas de preservação. Obras de restauração, reforma, pintura, instalação de equipamentos ou mudanças na fachada podem exigir análise e autorização dos órgãos responsáveis. As exigências variam conforme o tipo de proteção e a instituição responsável pelo tombamento.
O Iphan informa que o conjunto tombado de Goiânia reúne 22 edifícios e monumentos públicos, concentrados principalmente no centro da cidade. O reconhecimento nacional foi formalizado em 2003. (gov.br)
Como observar o Art Déco ao visitar Goiânia
Para entender por que Goiânia tem tantos prédios nesse estilo, o melhor caminho é percorrer a região central a pé ou participar de um roteiro histórico. A Praça Cívica funciona como ponto de partida porque concentra parte significativa dos edifícios públicos e permite observar a relação entre arquitetura, paisagismo e desenho urbano.
Durante o passeio, vale observar as entradas principais, os frisos, a simetria das fachadas, as linhas verticais, os volumes escalonados e os elementos geométricos. Também é importante reparar na posição dos prédios em relação às avenidas e praças. O conjunto faz mais sentido quando visto como uma paisagem integrada, e não apenas como uma coleção de edifícios antigos.
A Avenida Goiás reúne outros marcos da arquitetura da primeira fase da capital, incluindo a Torre do Relógio. O Teatro Goiânia, a antiga Estação Ferroviária e o Grande Hotel também ajudam a compreender como o estilo foi usado em diferentes funções: cultura, transporte, hospedagem e administração.
Antes de visitar interiores ou equipamentos culturais, é recomendável confirmar os horários de funcionamento e as regras de acesso nos canais oficiais dos órgãos responsáveis. Alguns prédios têm uso administrativo, passam por restauração ou funcionam com programação específica.
Uma marca da identidade de Goiânia
A grande quantidade de prédios Art Déco em Goiânia é resultado da combinação entre planejamento urbano, construção de uma nova capital e busca por uma imagem de modernidade. O estilo foi escolhido em um momento de transformação política e territorial e acabou incorporado à identidade da cidade.
Por isso, a arquitetura Art Déco de Goiânia não representa apenas uma preferência estética. Ela registra o projeto de criação da capital, a expansão do Brasil Central e a tentativa de apresentar Goiás como um estado conectado às ideias de progresso do século 20.
Hoje, os edifícios preservados permitem acompanhar essa história nas ruas do centro. Cada fachada, praça ou monumento integra um conjunto que ajuda a explicar como uma cidade planejada se transformou em uma metrópole. A preservação desse patrimônio mantém visível a memória dos primeiros anos de Goiânia e oferece aos moradores e visitantes uma forma concreta de conhecer a origem da capital.