O Setor Fama ocupa um lugar particular na história urbana de Goiânia. A região se desenvolveu entre o Centro da capital e Campinas, em uma área que recebeu trabalhadores, famílias de migrantes e pequenos empreendedores durante as primeiras décadas de construção da cidade. Com o passar do tempo, o local se tornou conhecido pelo comércio de rua, pelas lojas familiares, pelas mercearias, pelos bares e pela circulação de consumidores em busca de produtos e serviços.
Embora o nome Fama seja usado popularmente para identificar uma área mais ampla, a denominação oficial dos bairros que compõem a região passou por mudanças. A antiga Vila Operária, núcleo importante dessa formação, corresponde atualmente ao Setor Centro-Oeste. O nome Fama permaneceu no uso cotidiano e se associou à principal via comercial do bairro, a Avenida Bernardo Sayão.
A história do Setor Fama mostra como a expansão de Goiânia ocorreu para além do traçado planejado originalmente. A ocupação da área, inicialmente não prevista como núcleo residencial, foi impulsionada pelas necessidades dos trabalhadores da nova capital e pela proximidade com Campinas, que já concentrava comércio e serviços.
Da Vila Operária à formação do Setor Fama
Goiânia foi fundada em 1933 como uma nova capital planejada para Goiás. O projeto inicial, elaborado pelo urbanista Attilio Corrêa Lima, previa uma área central organizada e limitada. O plano, porém, não contemplava de forma suficiente a moradia dos trabalhadores que chegavam para atuar na construção da cidade.
Na segunda metade da década de 1930, a área entre Goiânia e Campinas começou a ser ocupada pela Vila Operária. O local ficava próximo aos canteiros de obras da nova capital e tinha acesso aos recursos e serviços já existentes em Campinas. A disponibilidade de água e madeira também favoreceu a permanência de moradores.
A ocupação ocorreu de maneira espontânea, em muitos casos com moradias simples e sem a infraestrutura que posteriormente seria implantada pelo poder público. O crescimento da Vila Operária esteve relacionado tanto à expansão de Goiânia quanto ao custo dos aluguéis em Campinas, que dificultava a permanência de parte das famílias trabalhadoras.
Pesquisas sobre a memória da região indicam que a Vila Operária foi um dos primeiros espaços efetivamente ocupados nos arredores da nova capital. O bairro se formou, portanto, como uma extensão popular de Goiânia e como uma área de ligação entre o Centro e Campinas.
Por que a região passou a ser chamada de Fama
A origem do nome está associada à Fundação de Abrigo de Menores Abandonados, criada em 1949. A instituição ficou conhecida pela sigla Fama e se tornou uma referência para os moradores da cidade. A avenida que atravessava a Vila Operária passou a ser chamada popularmente de Avenida Fama.
O nome se consolidou na linguagem cotidiana, mesmo depois de a via receber oficialmente outra denominação. Em 20 de outubro de 1964, a Avenida J-1, conhecida como Avenida Fama, passou a se chamar Avenida Bernardo Sayão. A mudança oficial não eliminou o uso do nome popular, que continuou associado à região.
A Fundação Fama também influenciou a memória dos deslocamentos pela área. A instituição era um ponto conhecido por famílias e visitantes, e o caminho que levava até ela passou a ser identificado como estrada ou avenida da Fama. Com o crescimento urbano, a referência se estendeu ao bairro e aos estabelecimentos comerciais instalados nas proximidades.
É importante distinguir, portanto, o nome popular da região e as denominações administrativas dos bairros. O chamado Setor Fama não corresponde necessariamente a um único bairro oficial. A expressão é usada para designar uma área tradicional de Goiânia formada por diferentes setores e vilas ligados pela história, pelo comércio e pela circulação cotidiana.
A Avenida Bernardo Sayão e o comércio de bairro
O comércio do Setor Fama começou de forma gradual. Nos primeiros anos, os moradores enfrentavam dificuldades para comprar mantimentos básicos sem se deslocar até Campinas. As compras eram feitas principalmente na Avenida 24 de Outubro, um dos principais eixos comerciais campineiros.
A abertura de pequenos negócios mudou essa rotina. Muitas famílias adaptaram as próprias casas para criar estabelecimentos na parte da frente, enquanto continuavam morando nos fundos. Esse modelo de uso misto marcou a formação do comércio local e permitiu que os negócios fossem administrados por pais, filhos, irmãos e outros parentes.
Uma das referências mencionadas em pesquisas sobre a região é a Mercearia Vila Rica, criada em 1961 e posteriormente transformada em lanchonete. O estabelecimento vendia gêneros alimentícios, bebidas e produtos de uso doméstico. Seu funcionamento prolongado ajudou a criar uma clientela que recorria ao local em horários nos quais outras lojas permaneciam fechadas.
Também aparecem nas memórias dos moradores negócios como a chamada Venda Zé do Arroz. O estabelecimento comercializava arroz e outros itens básicos, além de realizar entregas para os moradores. Relatos como esse revelam uma forma de comércio baseada na proximidade, no conhecimento pessoal dos clientes e na confiança entre comerciantes e vizinhança.
Outro exemplo ligado à alimentação é o Depósito de Pães, criado por um comerciante que alugou um pequeno imóvel na Avenida Bernardo Sayão e passou a vender pães durante todo o dia. O negócio comprava os produtos de uma panificadora do Centro de Goiânia e os revendia aos moradores da região.
Essas experiências ajudaram a estabelecer a avenida como um eixo de abastecimento e convivência. Antes de se tornar reconhecida pelo comércio de roupas, a área já reunia mercearias, pontos de venda de alimentos, bares e pequenos negócios que atendiam às necessidades imediatas dos moradores.
Comida, bares e convivência no bairro
A gastronomia do Setor Fama se relaciona principalmente com a comida cotidiana e com os estabelecimentos de convivência. Mercearias, padarias, lanchonetes e bares foram importantes para a vida do bairro porque ofereciam alimentação, produtos básicos e espaços de encontro.
Na década de 1960, o comércio de alimentos ajudou a consolidar uma dinâmica própria na Avenida Bernardo Sayão. Os estabelecimentos funcionavam como pontos de referência para quem morava ou trabalhava nas proximidades. O consumo não estava separado da vida comunitária: comprar pão, buscar mantimentos ou parar para beber algo também significava encontrar vizinhos e acompanhar as mudanças da região.
O bar Chic Ponto é citado em relatos históricos como um dos locais frequentados por moradores e comerciantes no fim da tarde. O estabelecimento se tornou conhecido na região por reunir pessoas depois do expediente. A experiência mostra como os bares desempenhavam uma função que ia além da alimentação, funcionando como espaços de conversa, descanso e sociabilidade.
Essa tradição ajuda a compreender a gastronomia de bairro em Goiânia. Antes da expansão dos restaurantes especializados e dos grandes polos gastronômicos, a alimentação cotidiana era sustentada por negócios pequenos, muitas vezes familiares, que combinavam venda de produtos, preparo de refeições e atendimento direto ao público.
A cultura dos lanches rápidos também faz parte da identidade gastronômica da capital. O pit-dog, modelo de lanchonete popular criado em Goiânia na década de 1970, tornou-se um dos símbolos da comida urbana goianiense. Não há, nas fontes consultadas, comprovação suficiente para atribuir ao Setor Fama a origem desse modelo, mas a presença histórica de bares, lanchonetes e pontos de alimentação aproxima a região da tradição de comida rápida e acessível que se espalhou pela cidade.
Da vizinhança ao polo de confecções
No início dos anos 1960, a Avenida Fama ainda era descrita por moradores como uma via de um bairro residencial, tranquilo e com poucos estabelecimentos. A transformação comercial ocorreu de forma progressiva, à medida que novos empreendedores passaram a abrir lojas e adaptar imóveis para atividades comerciais.
O crescimento de Goiânia e de Campinas aumentou a circulação pela região. A Vila Operária passou a funcionar como área de passagem e de ligação entre diferentes partes da capital. Esse movimento favoreceu a abertura de novos negócios e estimulou a especialização comercial da avenida.
Nas décadas seguintes, a Avenida Bernardo Sayão se consolidou como um polo de confecções e de comércio de roupas. O setor passou a atrair consumidores de outras regiões de Goiânia e de municípios do interior de Goiás. A atividade comercial alterou o perfil da via, que deixou de ser apenas uma avenida de bairro para se tornar um endereço reconhecido pelo varejo.
A expansão do comércio, contudo, não eliminou as marcas da formação inicial. A estrutura de muitos negócios continuou baseada em relações familiares, no conhecimento da clientela e na adaptação de imóveis residenciais para uso comercial. A convivência entre lojas, moradias e serviços ajudou a preservar uma identidade própria.
Memória urbana e permanência do nome
A história do Setor Fama é também uma história de nomes, lembranças e usos cotidianos. Vila Operária, Vila Fama, Setor Centro-Oeste e Fama designam momentos diferentes de uma mesma área de Goiânia, marcada pela transformação urbana e pela permanência da memória dos moradores.
O nome popular sobreviveu porque se tornou mais do que uma referência geográfica. Ele passou a identificar uma rede de relações formada por comércio, alimentação, trabalho e vizinhança. Para muitos moradores, falar em Fama significa reconhecer uma região com trajetória própria, ainda que seus limites não coincidam exatamente com os limites administrativos dos bairros.
O comércio tradicional também funciona como arquivo da cidade. Mercearias, padarias, bares e lojas registram mudanças nos hábitos de consumo, na circulação das pessoas e na composição das famílias que vivem ou trabalham na região. Cada estabelecimento ajuda a contar uma parte da transformação de Goiânia.
Ao reunir a história da antiga Vila Operária, a atuação de pequenos comerciantes e a consolidação da Avenida Bernardo Sayão, o Setor Fama revela como a capital foi construída por diferentes grupos sociais. A região nasceu da necessidade de moradia e trabalho, cresceu com o comércio de proximidade e ganhou importância econômica com o polo de confecções.
Sua gastronomia tradicional não está restrita a restaurantes de destaque ou a endereços específicos. Ela aparece na venda de pão, no balcão da mercearia, no lanche servido no bar e nas refeições que acompanham a rotina de comerciantes e moradores. É uma gastronomia ligada à permanência, à praticidade e à convivência, características que ajudam a explicar por que o Setor Fama continua presente na memória urbana de Goiânia.
As informações históricas sobre a formação da Vila Operária, a Avenida Bernardo Sayão e o desenvolvimento do comércio foram baseadas em pesquisa acadêmica publicada pela Revista Mosaico, da PUC Goiás, além de registros históricos consultados em acervos da imprensa goiana.