segunda-feira, 28 de setembro de 2026
CIDADES

Campinas preserva parte da história de Goiânia antes mesmo da criação da capital

Campinas existia antes de Goiânia e teve papel decisivo na escolha do local onde a nova capital de Goiás seria construída. Hoje, o bairro preserva referências religiosas, comerciais e culturais desse período.

Antes de Goiânia ser planejada, Campinas já existia como uma comunidade organizada no território goiano. O antigo município, conhecido por muitos moradores como Campininha das Flores, tornou-se parte da capital durante o processo de construção da nova sede administrativa de Goiás. Por isso, o bairro preserva uma parcela da história de Goiânia que começou antes da fundação oficial da cidade.

A relação entre Campinas e Goiânia não se limita à proximidade geográfica. A escolha da região para a construção da nova capital transformou a paisagem, a economia e o cotidiano da comunidade. Ao mesmo tempo, tradições religiosas, espaços públicos, atividades comerciais e referências da antiga cidade continuaram presentes no bairro que se consolidou como um dos mais tradicionais da capital.

Campinas existia antes de Goiânia

Registros históricos indicam que a formação de Campinas começou em 1810, mais de um século antes da criação de Goiânia. A localidade se desenvolveu como núcleo de ocupação no interior de Goiás e passou por diferentes etapas administrativas até se tornar município. A antiga comunidade tinha vida própria, com atividades religiosas, circulação de moradores e comércio voltado para a população local e das áreas vizinhas.

Uma pesquisa acadêmica da Pontifícia Universidade Católica de Goiás descreve Campinas como um arraial fundado em 1810 e transformado em bairro de Goiânia em 1935. O estudo destaca justamente essa característica incomum: Campinas foi cidade antes de se tornar bairro. A trajetória ajuda a explicar por que a região mantém identidade própria e referências anteriores ao nascimento da capital.

O nome Campininha das Flores permaneceu associado à memória dos moradores mais antigos. A denominação aparece em relatos sobre a antiga comunidade e também em documentos municipais que tratam da transformação da localidade durante a construção de Goiânia.

A escolha do território para a nova capital

A mudança da capital de Goiás fazia parte do projeto político de modernização defendido por Pedro Ludovico Teixeira após a Revolução de 1930. A antiga capital, a Cidade de Goiás, era vista pelo governo como pouco adequada para um novo ciclo de expansão econômica, administrativa e demográfica do Estado.

Em 1932, foi criada uma comissão para analisar possíveis áreas destinadas à construção da nova capital. No início de 1933, os estudos consideraram localidades como Bonfim, atual Silvânia, Pires do Rio de Ubatan, em área atualmente relacionada ao município de Orizona, e Campinas.

O relatório final apontou como apropriada uma área próxima ao povoado de Campinas. Em 18 de maio de 1933, o Decreto Estadual nº 3.359 determinou a escolha da região situada às margens do córrego Botafogo, entre as fazendas Crimeia, Vaca Brava e Botafogo, então pertencentes ao município de Campinas. As informações são apresentadas pela Prefeitura de Goiânia em seu resumo oficial sobre a história da capital.

A definição do local aproximou duas realidades diferentes: de um lado, uma cidade planejada, criada para representar a modernização de Goiás; de outro, uma comunidade que já possuía vínculos sociais, religiosos e econômicos consolidados. Goiânia cresceu ao redor dessa estrutura anterior, e Campinas passou a integrar o processo de formação da nova capital.

O início da construção de Goiânia

A pedra fundamental de Goiânia foi lançada em 24 de outubro de 1933, em local definido pelo urbanista Attilio Corrêa Lima. A data foi escolhida para marcar os três anos da Revolução de 1930. A partir daquele momento, a região passou a receber obras, trabalhadores, comerciantes e novos moradores.

A construção da capital modificou o ritmo da antiga Campinas. A demanda por materiais, alimentos, serviços e moradia impulsionou o comércio local. O bairro também recebeu pessoas vindas de outras partes de Goiás e de outros estados, atraídas pelas oportunidades abertas pelas obras da nova cidade.

Segundo pesquisa acadêmica sobre a transformação da paisagem de Campinas, a chegada de imigrantes brasileiros e estrangeiros contribuiu para a expansão das atividades comerciais. A comunidade, que já tinha vocação para o comércio, passou a concentrar lojas e serviços associados ao crescimento de Goiânia.

Essa mudança não ocorreu apenas no aspecto econômico. A paisagem urbana também foi alterada. Novas construções surgiram, algumas influenciadas pelo art déco, estilo associado ao projeto arquitetônico da capital. A convivência entre edificações, espaços e costumes mais antigos e as novas formas urbanas criou uma paisagem marcada pela sobreposição de períodos históricos.

De município a bairro tradicional

Com a consolidação de Goiânia, Campinas deixou de funcionar como cidade independente e passou a ser incorporada à nova capital. A transformação foi gradual e alterou a posição administrativa da antiga comunidade, mas não eliminou sua identidade.

Ao longo do tempo, o bairro manteve características próprias na vida cotidiana, na religiosidade e no comércio. A antiga relação dos moradores com as praças, a igreja, os estabelecimentos tradicionais e as festas religiosas ajudou a conservar a memória de Campinas como uma cidade anterior a Goiânia.

A legislação municipal reconhece a importância histórica da região. A Lei nº 8.967, de 18 de outubro de 2010, incluiu Campinas entre os locais de interesse histórico e cultural de Goiânia e mencionou a Igreja Matriz e a Praça Joaquim Lúcio como referências do bairro.

Praça Joaquim Lúcio e o Coreto de Campinas

A Praça Joaquim Lúcio está entre os espaços que ajudam a contar a história da antiga Campinas. Antes da expansão da capital, o local já era ponto de encontro da sociedade campinense. A praça manteve essa função simbólica ao longo das décadas e se tornou uma das referências mais conhecidas do bairro.

O Coreto de Campinas, localizado na praça, também remete ao período anterior à consolidação de Goiânia. A estrutura atual foi reconstruída em 2002 com base em um projeto de 1931 atribuído a Attilio Corrêa Lima. A reconstrução procurou recuperar uma referência associada à configuração histórica do espaço.

Em roteiro oficial de atrativos da cidade, a Agência Municipal de Turismo e Eventos afirma que a praça é mais antiga do que a própria capital. O dado reforça a posição de Campinas como um dos poucos espaços de Goiânia cuja história antecede a fundação da cidade planejada.

A presença da Igreja Matriz

A Igreja Matriz é outro marco ligado à formação de Campinas. A instituição religiosa teve papel importante na organização da comunidade e na manutenção de práticas coletivas ao longo do tempo. Em torno da igreja, desenvolveram-se relações de vizinhança, celebrações e parte da vida social da antiga cidade.

A importância da igreja não se resume à arquitetura. Ela também representa a continuidade de uma memória comunitária que atravessou a transformação de Campinas em bairro. A presença de religiosos, paróquias e instituições ligadas à educação e à assistência contribuiu para a construção da identidade local.

Ao mencionar a Igreja Matriz entre os pontos de interesse histórico de Campinas, o município reconhece tanto o valor físico do edifício quanto a função exercida pelo espaço na história da comunidade.

O Mercado de Campinas e a memória do comércio

O comércio é uma das atividades que melhor expressam a continuidade entre a antiga Campinas e o bairro atual. O Mercado de Campinas começou a ser construído em setembro de 1954 e foi inaugurado em 29 de janeiro de 1955. Durante décadas, serviu como centro de abastecimento para Campinas e bairros vizinhos.

Na época da inauguração, o mercado reunia mercearias, bares e açougues administrados por pequenos comerciantes. O funcionamento diário desses estabelecimentos atendia às necessidades da população e reforçava o papel de Campinas como área de circulação e comércio.

Com a expansão dos supermercados, o modelo tradicional de abastecimento perdeu espaço. Ainda assim, o mercado manteve atividades e bancas conhecidas por consumidores de Goiânia e de outras regiões de Goiás. Em 2008, o espaço foi reinaugurado depois de uma reforma que ampliou o número de permissionários e criou uma área destinada à cultura e ao lazer.

O portal da Prefeitura de Goiânia registra a trajetória do mercado e descreve a permanência de comerciantes e serviços tradicionais. Nesse sentido, o local funciona como patrimônio da memória cotidiana, ligado menos a um único monumento e mais à continuidade das relações comerciais.

Memória, identidade e preservação

Preservar a história de Campinas significa reconhecer que Goiânia não surgiu em um território vazio. A nova capital foi construída em uma área que já tinha moradores, propriedades rurais, caminhos, atividades econômicas e instituições religiosas. A presença anterior de Campinas ajuda a compreender as escolhas urbanas e sociais que marcaram a formação da cidade.

Também é importante diferenciar patrimônio material e imaterial. Igrejas, praças, coretos e mercados podem ser reconhecidos por suas características físicas e arquitetônicas. Já os costumes, as festas, as formas de comércio, as lembranças dos moradores e o sentimento de pertencimento pertencem ao campo da memória e das práticas culturais.

Em setembro de 2026, a Câmara Municipal de Goiânia informou a aprovação, em segundo turno, de projeto que declara Campinas Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do município. A medida foi apresentada como forma de valorizar as tradições e a identidade próprias do bairro. A informação consta de publicação da Câmara Municipal de Goiânia, divulgada em 3 de setembro de 2026.

A iniciativa reforça uma percepção presente em estudos históricos e na memória dos moradores: Campinas não é apenas um bairro antigo de Goiânia. É uma parte da cidade que conserva vestígios de uma formação anterior e ajuda a explicar como a capital foi construída.

Uma história que continua na cidade atual

Campinas preserva parte da história de Goiânia porque reúne diferentes momentos da formação urbana de Goiás. O antigo arraial, a cidade que existia antes da capital, o território escolhido para as obras e o bairro comercial que se consolidou depois fazem parte de uma mesma trajetória.

As mudanças urbanas alteraram a paisagem e substituíram construções, hábitos e formas de circulação. Ainda assim, referências como a Praça Joaquim Lúcio, o Coreto, a Igreja Matriz e o Mercado de Campinas mantêm visível a ligação entre o passado e o presente.

Conhecer essa história permite olhar para Goiânia além de seus edifícios planejados e de seu conjunto art déco. A capital também foi formada pela incorporação de comunidades anteriores, entre elas Campinas, cuja memória continua presente nas ruas, no comércio, nas celebrações e na identidade de seus moradores.